Tumba de 6000 anos no Egito guardava dezenas de múmias de gatos

Os egípcios eram os loucos dos gatos.

A origem dos felinos domésticos data de 10 mil anos atrás, vinda da subespécie Felis silvestris lybica, originária do que hoje conhecemos como Turquia e Chipre. A domesticação surgiu para quebrar um galho: quando os agrupamentos humanos daquela região deixaram o nomadismo e começaram a viver da agricultura, os estoques de grãos (como centeio e trigo) advindos das plantações começaram a atrair muitos roedores. Como essas pragas eram as presas favoritas dos gatos selvagens, os animais passaram a ser aceitos pelos humanos.

Mas foi do outro lado do Mediterrâneo que se constatou que essa relação de comensalismo com gatos selvagens evoluiu para o surgimento dos bichanos atuais: o DNA dos gatos encontrados no Antigo Egito, já diferente dos seus ancestrais, se assemelha muito com os animais domésticos que criamos hoje. E foi na região dos Faraós também que essa relação ganhou dimensões divinas: no Império Egípcio, a agricultura era vista como uma dádiva ensinada pelos deuses. Como os gatos ajudavam na manutenção dos estoques de grãos (acabando com os ratos), os egípcios começaram a tratar os bichanos como membros da família. E foi daí que surgiu o culto – tanto que a deusa egípcia Bastet, antes representada com uma cabeça de leoa, passou a aparecer com uma cabeça de gato.

Agora, essa história ganha mais um capítulo: o Ministério de Antiguidades do Egito anunciou, no último sábado (12/11), que uma equipe de arqueólogos egípcios encontraram dezenas de gatos mumificados. As descobertas foram feitas em um túmulo recentemente descoberto no sítio arqueológico de Sacara, ao sul da cidade do Cairo, local de uma necrópole usada pela antiga cidade de Memphis. Ao todo, sete novos sarcófagos, datados de 4500 a 6000 anos, foram descobertos – e três deles guardavam exclusivamente gatinhos.

No túmulo, que data da Quinta Dinastia do Antigo Império egípcio, também foram encontradas cerca de 100 estátuas de gatos feitas em madeira dourada, e uma estátua de bronze da deusa Bastet. Os arqueólogos já sabiam que gatos recebiam os mesmos ritos fúnebres que os seres humanos mais notáveis (como os Faraós), sendo embalsamados e sepultados. Mas as imagens ainda impressionam. Confira abaixo algumas:

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Não é a primeira vez que encontram gatos mumificados no Egito, de qualquer forma. A maior novidade ali foi outro animal embalsamado: besouros escaravelhos. Eles foram encontrados dentro de um sarcófago retangular de pedra calcária, que possui uma tampa especialmente decorada com três escaravelhos pintados de preto. Análises mostraram que esses escaravelhos estão embrulhados em linho e em uma condição de preservação excelente. “O escaravelho (mumificado) é algo realmente único. E é bem raro”, disse à imprensa Mostafa Waziri, secretário-geral do Conselho Supremo de Antiguidades do Egito. Confira as imagens:

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Turismo como foco

Em meio a todos esses achados, o Ministério de Antiguidades foi claro sobre seus objetivos ao anunciar as descobertas: atrair visitantes de volta aos locais de patrimônio histórico do Egito.

Isso porque desde 2011, quando protestos em massa puseram fim aos 30 anos de governo de Hosni Mubarak, o país sofre com um queda significativa de turistas. A Primavera Árabe, para eles, não foi tão benéfica assim: sete anos depois do acontecido, o Egito é hoje liderado pelo presidente Abdel Fatah el-Sisi, que, assim como Mubarak, é considerado ditatorial. Ele chegou ao poder em 2013, através de um golpe de Estado que derrubou o primeiro presidente eleito pós-revolução, Mohamed Morsi — ligado à Irmandade Muçulmana. Em 2014 e 2018, Sisi foi reeleito nas urnas, mas em eleições consideradas fraudulentas. O clima de instabilidade afastou grande parte dos turistas.

Essas descobertas são as primeiras feitas na região desde 2013, quando todas as missões arqueológicas na área de Sacara foram completamente interrompidas. O Ministério de Antiguidades está otimista que elas representem o início de uma nova era para o turismo do país.

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